Bocadinhos de mim

Mar, sol, cheirinho de terra molhada, chá de menta e hortelã, acordar despenteada, passear pela manhã, rir, cantar, dançar como louca, e sentir o sabor do sal na boca, música apropriada, leituras pela madrugada, estar contigo, com eles e comigo, estar sozinha, estar livre, correr e sonhar, sonhar e correr atrás dos meus sonhos, são bocadinhos de mim...

Wednesday, October 11, 2006

Embora possa parecer, não desapareci por completo. Estou é ocupada com outras coisas, e como muda o tempo e as vontades, tenho dado prioridade aos meus outros projectos. Já agora, e passo a publicidade, apareçam na minha "oficina" ainda muito embrionária, mas que em breve será muito grande (assim o espero!).

Wednesday, July 05, 2006


Sou igual a tantos outros. Não me envergonho em dizê-lo. Aprendi a gostar de futebol há dois anos quando o meu país não só foi palco de um campeonato europeu que ficará na história, como também a nossa selecção ela mesma fez história. Há dois anos vesti a bandeira e fui com tantos outros espalhar o som do nosso hino pelo país inteiro. Até 2004 não sabia gostar de futebol e o vermelho e verde eram apenas as cores alusivas à época natalícia. Não conhecia o sentido de patriotismo que nos Estados Unidos é vulgar, e bandeiras à janela, nunca as vi.
No Euro 2004 a nossa voz ouviu-se mais alto pelos quatro cantos do mundo. Atiraram-se confetis e lágrimas pelos relvados e pelas salas de estar de qualquer casa portuguesa. No entanto, aquela final ficou-nos atravessada na garganta. O segundo lugar não é mais do que o primeiro dos últimos e esperemos agora, dois anos volvidos, e num campeonato mundial, que o primeiro seja o nosso único e legítimo lugar.
Há dois anos vi gente ao meu lado, homens, mulheres, crianças, velhos, novos, de mãos dadas ou abraçados e vi-os chorar, sem discernir cores, sexos, credos ou religiões. Desta vez, espero que chorem sim, de alegria. Porque o campeão do mundo é campeão da Europa.

Friday, June 16, 2006

Ela encostou-se devagarinho, quase não exercendo qualquer pressão sobre o seu peito e limitou-se a ouvir o tic-tac cambaleante do coração. Fechou os olhos para beber a melodia que a embalava e desejou profundamente que o tempo pudesse parar naquele instante tão confortável e que sabia tão bem, de modo a que não houvesse lágrimas que a detivessem, que interrompessem o caminho por que seguia.
Ele fez-se montanha secular, forte, imponente, altiva, cujos dedos roçam os céus, e deixou-a encostar-se devagarinho, não exercendo qualquer pressão, ainda que exercesse. Depositou os olhos naqueles outros dois, fechados, assustados, mas serenos, e enrodilhou os dedos desenhados num mar de caracóis. E assim cantou baixinho, só para ela, a música do seu coração.
.
Para o meu querido amor, com um agradecimento maior do que eu, do tamanho do mundo inteiro.

Monday, June 05, 2006

Hold Without Possessing

O dawn-faced beauty, this is how it is to love you:
to fly higher and higher into a receding sky,
to lose masks and pride and the lust of eyes.
The first thing is to let go of life.
What follows is to hold without possessing.
To abandon the world and deem it rightly transparent,
and to receive at last what the heart will not release.
.
For when I considered this heart’s demanding
and resplendent independence,
I could not see beyond the gift
its one time broken spirit boasted.
.
O my soul, how strange to breathe without breathing!
And from where comes unconscious beating?
Winged soul within me, what is this that passes through me
when at once you catch a glimpse of her sleeping?
.
And when that heaviness comes, it lifts me up like a child.
Possessing and not possessing, are they in fact the same?
For in sorrow, joy is not far from me-: it is but masquerading;
and joy, once come, seems nothing more than sorrow’s unveiling.

Tuesday, May 23, 2006

Peço desculpa por nunca mais ter passado por cá, mas a verdade é que não me tem apetecido muito. Contrariedades, é o que é... Enfim, espero que a crise da inspiração e o que mais advém dela passe depressa.
Entretanto, espero que passem noutro blog e que o divulguem se possível.
http://cantodosencantos.blogspot.com

Tuesday, April 11, 2006

Solo después que el último arbol haya sido cortado
Solo después que el último río haya sido envenenado
Solo después de que el último pez haya sido pescado
Solo entonces descubrirás
que el dinero no se puede comer
Profecia dos Índios Cree

Monday, April 10, 2006

Na verdade, nunca discutimos a sério. Temos uns certos arrufos típicos de velhos companheiros e cúmplices, mas nunca discutimos a sério. Quem leva o cão à rua, camisas não passadas à hora certa, horários que não se coadunam entre uma telenovela e um jogo de futebol no canal codificado... Quem terá a coragem de dizer que são discussões?
Mas confesso, dá-me vontade de rir quando vejo o seu ar amuado, sentado no sofá, a mudar os canais aleatoriamente, sem pôr os olhos em nenhum que seja, a fazer um trejeito de boca absolutamente genuíno, e alguma troca de palavras secas, que não têm significado algum, exactamente por serem resultado de uma discussão sem importância.
Depois, sento-me ao seu lado, procuro discortinar no zapping, algum sentido, entrelaço um dedo, num dedo seu, depois dois, três, a mão, as mãos, uma perna enroscada na sua perna, e o trejeito de boca absolutamente genuíno transforma-se numa expressão de menino mimado, igualmente genuíno, prestes a ceder, e que acaba mesmo por ceder, desmaiando num beijo profundo.
Nunca discutimos a sério, realmente. Ou não fôssemos velhos companheiros cúmplices. Nem por uma camisa mal passada, ou pelo cão que ainda não foi à rua.
Acho que é por isso que revejo nele a testemunha autêntica do doce discorrer dos meus dias.
Pergunto-me não poucas vezes, se o silêncio falasse, de que falaria? Questiono se adoptaria um espírito coscuvilheiro, e contasse as estórias testemunhadas. Ou se por outro lado, assumisse um lado moralista, quase juiz dos pensamentos alheios.
Se o silêncio falasse, provavelmente não seria tão pesado e tão leve, tão comprometedor, tão constangedor, tão reconfortante.
Dizem que o silêncio é a melhor das companhias. Desconheço veracidade neste juízo. Até porque nunca ouvi o silêncio falar, nem em línguas estrangeiras, nem por telepatia, nem com voz de criança. E embora seja fácil pensar que é desculpa para quem nada tem a dizer - tristes aqueles que sustentam esta ideia - o silêncio, na sua quietude de velho sábio, nunca falou, mas diz a palavra certa, no momento adequado.

Saturday, April 08, 2006

Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica.
Me dê um abraço, venha-me apertar, estou chegando.
Coisa que gosto é poder partir sem ter planos,
Melhor ainda é poder voltar quando quero.
Todos os dias é um vai e vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega para ficar
Tem gente que vai para nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem,
O trem que chega é o mesmo trem da partida.
A hora do encontro é também despedida.
A plataforma desta estação é a vida deste meu lugar,
É a vida...
Maria Rita

Thursday, March 30, 2006

Acordei cedo, rejuvenescida, ainda que tendo nas costas o peso de mais um ano. Abri as janelas e vi que São Pedro me ofereceu um dia bonito e cheio de sol (pelo menos por agora). O telemóvel, sem som, dizia-me haver seis mensagens recebidas, todas com o mesmo assunto: Feliz Aniversário, Laura!
Há quem não entenda este meu favoritismo pelo dia do meu aniversário. Não me preocupo com o doce passar dos anos. Pelo contrário, a cada um que passa, sinto-me melhor comigo e com a minha idade, e que este ano pode ler-se ao contrário e tudo. 22! 22! 22!
Tomei um banho de imersão, usei os sais e os líquidos perfumados que guardo para dias especiais, acendi velas e um pau de incenso e mergulhei nas águas com um sorriso triunfante. Este dia é só meu! Não conheço mais ninguém que partilhe a data comigo, o que só faz que o dia 30 de Março saiba muito melhor.
Hoje não há nada que me possa parar... Não há inquietude que me faça tropeçar. Hoje sou princesa e rainha... E tenho tanto, tanto orgulho nisso!

Tuesday, March 28, 2006

Estás de partida, Gaivota, e não sei se te amaldiçoe, se te congratule e fique feliz. Apetece-me pedir contas a este destino ingrato, e dizer-lhe que esteve sempre errado. Não é justo que os ventos soprem em direcção de outros lugares, quando o teu lugar é junto a mim. E quando ainda tinha tanto para aprender contigo, foi precisamente quando decidiste voar para mais longe.
Nunca te disse o quão importante és para mim. Sim, eu sei que para estas coisas, não são precisas palavras. Mas não serão as palavras, a matéria que constitui os nossos corpos, a nossa alma? E é certo que o teu lugar em mim há-de ser sempre teu, passem os 20 ou 30 anos que dispenderás na apanha do morango da tua vida. És importante, tão importante... Por que raio precisei de um adeus para sempre para percebê-lo???
Tenho pena do tempo perdido. Ou talvez até nem tenha, porque o que se perdeu num lado, ganhou-se noutro. Tenho pena sim, de não ter tido tempo para absorver o melhor de ti, de homenagear-te todos os dias, de espicaçar o teu jeitinho fácil de compreender, de aceitar, de impor.
Por outro lado, tenho a dizer-te que fico contente com a tua decisão de mudar, de começar de novo, quando existe tanta falta de coragem para dar um passo em frente. Mais uma vez, superaste-te a ti mesmo, o que, com toda a certeza, elevou muito mais o que penso a teu respeito. Tens tomates, puto... E este mundo já não é para ti. Talvez nunca tenha sido. Não há espaço para génios em pleno desenvolvimento em Portugal. Isso é lá para os lados do estrangeiro, em que sempre se deu a primazia ao melhor em detrimento do pior.
Como poderia ficar zangada com a tua partida, quando só me apetece mesmo é zangar-me e prender-te aqui? Não posso, não devo. Não se cortam as asas aos passarinhos em plena aprendizagem de vôo.
Desejo-te toda a sorte do mundo. Já te disse que nestas coisas, a sorte é um factor principal. Não basta o talento, não basta a vontade, não basta o empurrão. É preciso sorte para tudo.
Vai lá embora, solta as amarras. Eu, por minha vez, egoista na minha condição humana, solto-te também, ainda que a custo. Promete-me que serás feliz. E escreve-me cartas, milhares delas, para guardar na gaveta atadas a fita de cetim, para vir a lê-las aos meus netos quando lhes contar que um dia, conheci um artista de verdade, no palco da vida.
E se um dia regressares, espero-te com um livro em branco. Quem sabe se não ganharemos o tal Nobel da Literatura e da Paz e da Ciência. Quem sabe...
Texto dedicado ao meu amigo João Ferro que, tal como uma ave migratória, decidiu partir em busca de melhores condições climatéricas